-Puta merda, queria um cigarro.
Toda vez que sentava de frente para o computador na mesinha de escritório, sentia uma vontade louca de fumar. Fumar e falar alto sozinha. Tinha uma cisma de que a mesa sempre deveria estar encostada em uma janela para ver a chuva caindo; e foi numa noite dessas, de chuva e vontade louca de cigarro, que decidiu se matar. De novo.
- Sei lá. Não tem mais sentido isso aqui.
Pensou em ir até o posto de gasolina comprar um maço de cigarro, mas só teria tempo de fumar um ou dois antes de morrer - esperava!
Ou senão, usaria o fumo de muleta para não ir adiante. Não queria continuar vivendo como covarde naquela noite. Queria era morrer como a covarde que era. E pra quê, então? Ia passar a vontade de fumar e de falar sozinha, viveria mais um mês confortável até a próxima crise bater a sua porta e ela sentar do lado da janela vendo a chuva bater no vidro sujo.
- Mas que merda, hein. Eu só queria a porra de um cigarro.
De repente se sentia exposta. Não tinha mais ninguém além dela na casa, mas podia jurar que havia um par de olhos encarando-a pelas costas e julgando as besteiras que saíam de sua boca. Patética! Olhou em volta pensando em quê usar para acabar com a mísera vida que levava. Só encontrou uma tesoura cega e um barbante velho jogados no fundo da gaveta. Começou a rir sozinha da própria fraqueza. Era talvez a quarta vez que pensava em suicídio e não fora sequer capaz de comprar uma lâmina que prestasse! Tinha vergonha de admitir que a ideia de se matar era tão ridícula que nem mesmo ela se levava a sério. Olhou para rua por detrás do vidro embaçado e suspirou para fora do corpo todo o resto da inquietação presa dentro de si.
- Puta que pariu, só queria um cigarro..
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