quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Depois daquilo não restaria nada. nem obra nem autor.  se revirava sem mover um músculo. tinha imaginado os resultados, todo o reconhecimento ou ao menos uma confiança inabalável que viria de si mesmo pra nunca mais ir embora,  tinha imaginado tantas vezes o
futuro hostil, mas era sempre uma fantasia, um quadro desfocado a ser posto na frente de tudo apenas para que pudesse se manter trabalhando ou fingindo que fazia alguma coisa. agora parecia que boa parte ou tudo perderia seu sentido. Chutou uma lata. era estranhamente libertador,
 uma pena que fosse tão tarde da noite( na real nem tinha lata porra nenhuma), Tarde de mais para sair e fazer alguma coisa, já que não saía de noite nem fodendo. 
Uma porrada de passarinhos minúsculos brotou não se sabe até hoje da onde, fizeram algumas elipses e sumiram, pareciam passarinhos pelo menos  e  tava escuro.
Uma substância invisível escorreu das coisas e dos prédios lá no fundo, se instalou no chão, nos olhos, na garganta; pra se acumular e fazer um nó que não o do choro , era outro. os olhos: sentia eles cheios de areia; sem sentir vontade de esfregá-los..  Andava em círculos para relembrar os tempos em que o fazia acompanhado, dividindo silêncio.  O que diriam todos se o vissem ali? todo o pessoal na foto, atrás deles o nó, aquele rasgo que ardia do pé até cabeça de um jeito tão daora que tirava o peso do resto....

- Caraio, que viaje.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Da menina que saiu fugida de casa.

Camila desceu do ônibus.
Quando saiu de casa, imaginava que chegaria em São Paulo num dia quente e ensolarado. Veria as pessoas correndo por todo lado, falando alto, esbarrando umas nas outras. Achou que escutaria exclamações como "desculpa!", "com licença!", "estou atrasado!" por todos os cantos, bem como são nos filmes americanos, quando um forasteiros chega a Nova York.
Na verdade, lembrava vagamente de alguém já lhe ter dito que a capital era como uma Nova Iorque brasileira cheia de sujeira e coreanos.
Não é de se admirar a decepção da menina ao pisar na capital.
O ônibus tinha ficado preso por algumas horas na estrada por causa de algum acidente, e atrasava toda a programação de viagem de Camila. A baldeação seria só dali algumas horas.
Quando chegou, a rodoviária estava escura e vazia.
Não conhecia nada. Não sabia se era seguro ficar rondando pelo lugar, ou se era pior ficar parada dando pinta de turista.
Se sentiu sufocada e presa dentro da caixa de concreto cheia de placas luminosas de café. Ficou medo de ter um ataque de pânico e asma ali, no meio do nada, e correu para achar algum lugar que pudesse ver o breu do céu.
Andou a passos rápidos pelos corredores imensos da rodoviária até encontrar uma placa indicando área para fumantes. Seus pulmões já estavam queimando, e as pernas cedendo a cada passo, quando finalmente alcançou a saída. Empurrou a porta com toda força, e, no minuto que pôs os pés do lado de fora, respirou fundo o ar gelado da cidade paulista.
Ficou algum tempo olhando pro céu infinito, tentando retomar fôlego.

- Ei, tá tudo bem? 

Havia mais alguém ali. Camila estremeceu um pouco.
Olhou rapidamente na direção da voz e viu um cara de preto dos pés à cabeça.
Não conseguia responder à pergunta dele.

-Tá tudo bem, eu não vou te roubar. - deu um ultimo trago no cigarro e depois apagou a bituca na sola do sapato - Se eu fosse mexer com você, teria ficado quieto quando você chegou. Tá indo pra onde?

Camila ainda estava em choque. Mal conseguia respirar direito, quem diria conversar com o estranho parado ao seu lado. Só conseguia ficar ali, estática, com os olhos arregalados olhando para ele.
Ele suspirou, bagunçou o cabelo e acendeu mais um cigarro.

- Vê se fica por perto. Não é bom ficar sozinha aqui a essas horas. 

Não sabia se confiava nele, mas pelo menos fazia sentido.
Apesar do coração batendo rápido, Camila pode relaxar os ombros. Levantou a cabeça, e ficou de olhos fechados, sentindo uma chuva fina gelada caindo sobre a sua cabeça e bagunçando seu cabelo.
Quase conseguiu sorrir.