segunda-feira, 31 de outubro de 2022

De quando contamos até dez.

Era uma manhã de sábado sossegada e silenciosa. 

Estava um pouco escuro, não fazia muito sol no dia, mas também não estava frio. 

Eu estava sentada no chão da sala, em cima do tapete, no chão de madeira.

No meio das minhas pernas estava o meu filho, brincando com pequenas estátuas animais de madeira, falando qualquer coisa sozinho. Ele era pequeno, mas já falava o suficiente para termos conversas longas. 

Eu falava "vamos contar, meu filho?"

E nós dois contávamos até dez. 

"Une, due, tre, quattro, cinque, sei, sette, otto, nove, dieci"

Depois eu sorria e beijava sua cabeça com carinho.

Ele continuava distraído olhando para os brinquedos e perguntava quando o papai voltava.

Eu falava que não sabia, que ia demorar, mas ele podia ligar mais tarde. Depois contava até dez de novo, brincando com os dedos da mão.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

De quando o tempo passa e você se lembra de si mesmo

Estou sentada em minha casa. No meu sofá. Na minha sala. Estou com o computador no colo, tentando pensar em tantas coisas que tenho para dizer, e ao mesmo tempo preocupada por saber que não estou mais habituada a escrever - principalmente por não estar mais sozinha.

Já faz três anos desde que escrevi pela ultima vez, e uma vida inteira aconteceu durante esse tempo. Sinto que se eu fosse descrever todas as mudanças, estaria escrevendo um romance enorme, cheio de ficção, e não um relato biográfico.

Em três anos, me casei. Também conquistei minha casa, mas ela ainda não é só minha. Na realidade, sequer tenho um lugar só meu!, como era meu quarto quando eu morava com a minha irmã. Sabe o que mais? Me tornei "mãe". Ela tem 6 anos e é filha do meu esposo, mas sinto cada dia mais que ela também é minha.
Ele também foi um acontecimento marcante! Aconteceu sem que eu acreditasse, e ficou de vez. Tomou conta de tudo, com muito amor e carinho, e agora só tem espaço pra ele, pra sempre. Gostaria de falar mais sobre isso, mas às vezes fico com vergonha de falar sobre amor.

Nesse momento, ele saiu do estúdio, e estou levemente aflita por estar escrevendo meus sentimentos. Devo parar. Volto mais tarde.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

De quando você assiste a um filme e as coisas perdem o sentido.

Percebo que há alguns dias não consigo acompanhar meu próprio ritmo. Falei na última sessão com o psicólogo que eu me sentia enérgica (e é verdade), porém também me sinto terrivelmente cansada. 

Hoje a tarde em mais uma tentativa bem sucedida de negligenciar minhas responsabilidades fui ao cinema com alguns amigos, e assistimos "mother!". Antes mesmo de terminar a sessão eu já estava em pranto compulsivo e sabia que não conseguiria me reerguer daquele estado tão cedo.

Pois bem, já se passaram quase 12 horas desde o filme e eu ainda me sinto quebrada por dentro. 

Não consigo evitar pensamentos autodestrutivos e rondar memórias mordazes, não consigo dormir e não quero ficar acordada. A minha maior vontade neste momento é a não-existência, porque a certeza de que estou agora mais consciente que nunca do meu existir é tremendamente excruciante. 

Racionalmente sei que essa convicção de ter a depressão patrulhando cada passo que dou é falsa, que é um pensamento temporário contaminado pelo meu desajuste durante o filme. Mas com ainda mais força tenho a certeza pautada no mundo da irrealidade e dos sentimentos de que essa tristeza está incrustada fundo em mim, na minha alma, e não sairá de mim jamais.

domingo, 25 de setembro de 2016

Califórnia (2015) - Marina Person

      Antes de tudo, começo dizendo que essa é a primeira vez que estou escrevendo alguma coisa relativa a uma "crítica cinematográfica". Não considero esse amontoado de pensamentos uma crítica justamente porque são amontoados de pensamentos. Não tem nada certo, o filme não me dá nenhuma certeza a respeito de nada, mas ainda assim sinto que preciso exercitar o lado cineasta que exige que os pensamentos sejam registrados e expressos publicamente em algum lugar.
      Acabei de ver "Califórnia", dirigido pela Marina Person. 
Escolhi ver esse filme primeiro porque é dirigido por uma mulher, segundo porque é brasileiro, e terceiro (mas talvez o mais importante) porque ando sendo uma vergonha para a juventude de cinéfilos. Talvez eu tenha visto 40 filmes esse ano, e esse é um número tão pequeno que chego a ter vergonha de dizer que estudo cinema. 

      De qualquer forma, vamos ao que menos importa: o filme.




       Califórnia é sobre os anos 80, sobre jovens cruéis e caretas e sobre sofrimento. A protagonista é a típica adolescente que não se encaixa em lugar nenhum, mas se esconde num grupo de adolescentes terríveis que nada sabem da vida, mas tem várias certezas sobre tudo (no caso, como qualquer outro adolescente de hoje em dia). 
       Não me interessa muito hoje falar sobre o roteiro. Na verdade o roteiro é o que menos me interessa. 
Achei até quase na metade do filme que não estava gostando de nada, que o roteiro não era interessante, que o som era terrível, que os atores estavam em níveis ou estilos diferentes e parecia que eu estava perdendo o meu tempo vendo aquilo. Mas percebi que talvez o problema fosse o orçamento. Dei mais uma chance pra Califórnia e acho que foi bom.
       Veja bem, é um filme cheio de boas intenções! O som é terrível, isso não tem perdão. Mas ainda assim, os momentos de pior som são as externas em lugares bem movimentados, no centro de São Paulo. Isso porque ele foi terrivelmente dublado, mas a razão pra dublagem me dá uma pontinha de conforto. 
       O desenhista de som teve a preocupação de lembrar que os sons dos automóveis de hoje não são os mesmos que nos anos 80. Então a dublagem é feita porcamente só pra que seja mixada junto de um bg de trânsito de carros da época. Isso é lindo! Talvez se tivessem mais dinheiro pra lidar com a pós de som, o filme ficaria mais bem acabado; mas isso acho que não importa mais. 
       Outra coisa que eu gostei foi como os insertes de imagem de arquivo não empobreceram o filme. Não que filmes com insertes do tipo fiquem ruins, em geral, mas nesse caso especialmente a diretora optou por aproximar esteticamente as imagens de arquivo da imagem captada pro filme, e se não tivesse sido bem feito, poderia ter feito o filme ficar insuportavelmente horrível. 

       Acho que já chega de falar imbecilidade sobre coisas que não domino completamente (apesar de que depois de 3 anos de faculdade eu já devesse saber o que estou fazendo, não é?). Quem sabe no próximo filme eu não diga tanta besteira.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

De quando o coração bate forte demais

Às vezes eu sinto que meu coração vai parar de bater.
Agora mesmo, por exemplo. Ele está batendo tão forte, mas tão forte, que uma hora ele vai se cansar de bater tanto e vai parar.
A cada batimento, uma facada.
A cada uma, a espera de que seja a última; mas nunca é.

Tenho vontade de chorar, mas não posso acordar a minha irmã dormindo ao lado.
Tenho vontade de sair correndo e gritando, mas meu corpo não responde a nenhum movimento.

Não consigo respirar direito, parece que me esqueci como se faz.
Só consigo prestar atenção nos batimentos cardíacos, tão fortes que parecem explodir meu peito a qualquer instante.

Mas a pior parte é saber que essa não é a ultima vez que vou sentir isso.
Daqui a pouco meu corpo adormece de exaustão e depois que eu acordar começa tudo de novo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

De quando eu tive um sonho com vampiros, elfos e amuletos. - PARTE 1

Hoje eu acordei ofegante. Tive um sonho incrível e medonho.
Eu estava no quarto de uma casa desconhecida, completamente perdida. Eu não sabia quem eu era e porque eu estava ali. Em volta de mim haviam malas e muitas roupas e joias espalhadas pelo chão e uma cama de casal king size. Na minha frente, estava uma criança muito bonita, de cabelo cinzento comprido e olhos enormes e da cor dos olhos de uma cobra, só que num tom um pouco mais aguado.
Olhei em desespero para ela, tentando entender o que estava acontecendo, e ela logo entendeu.
"Acho que acabou o feitiço de novo, né? Fica tranquila, você trabalha pra minha família."
Por alguma razão aquelas palavras de fato me tranquilizaram. Aquela criança estranha sorriu para mim, e eu sorri de volta. Olhei em volta de mim de novo, e entendi que deveria guardar aquelas coisas dentro da mala. Comecei o meu trabalho com a sensação de que já fizera aquilo milhares de vezes.
Nas malas eu tinha que guardar muitas roupas e tecidos, mas não porque eles precisavam delas. Aparentemente eram as joias que importavam, as roupas eram só uma forma de assegurar que não se quebrassem no trajeto.
Continuei minha tarefa por um bom tempo. Pessoas entravam e saíam daquele quarto falando coisas estranhas. Depois descobri que haviam outras pessoas como eu, trabalhando para eles - todos eram tratados como escravos ou algo ainda pior.
Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas aos poucos fui recobrando a lucidez. Eu ainda não sabia quem eu era, mas ao menos tinha certeza que a natureza daquelas pessoas tão bonitas não era a mesma que a minha.
Subitamente escutei um grito no andar de baixo. Os gritos se aproximavam, até que uma pessoa entrou no quarto desesperada. Nesse momento estávamos sós no quarto. Era um rapaz magro, baixo e forte. Seus olhos estavam arregalados de horror, fixos nas joias que eu estava embalando. Alcançou o objeto mais próximo de si, um castiçal de ouro com cristais penduricados, e algo muito estranho aconteceu. Aquele homem, que havia chegado àquele quarto tomado de pânico, desaparecera diante dos meus olhos como se nunca estivesse ali.
Fiquei alguns segundos pasma olhando para o lugar onde ele estava instantes antes, e foi assim que o patriarca daquela família sinistra encontrou o pobre rapaz. Um ser horrível entrou pela porta. Eu sabia que era alguém relativo àquela criança que estivera ao meu lado. Seus cabelos também eram compridos e cinzentos e seus olhos tinham uma cor feia e aguada. Porém seu rosto estava desfigurado, como de um monstro. A boca parecia a de um demônio, enorme e cheia de dentes. Não tinha os chifres do diabo, mas as asas sim. A pele, que da criança era pálida e cremosa, tinha um aspecto morto, cheio de veias saltadas.
Agarrou o ar com suas garras e vi o rapaz ser arremessado para o outro lado do quarto, deixando cair o castiçal e quebrando os cristais em mil pedacinhos.
Os demonios que antes caçavam o homem na minha frente voltaram a ser seres belíssimos e plácidos. Correram em direção ao castiçal tentando salvar a joia de alguma forma, mas estava arruinada. O rapaz, caído ao meu lado, estava morto.
Olhei novamente para a mesma criança que estava ao meu lado e ela novamente sorriu para mim.
"Está tudo bem."
Retribuí o sorriso e voltei à minha tarefa.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

De quando você toma propanolol.

Propanolol. A arma mais usada pelo homem para eliminar problemas. Um comprimido e todas as frustrações desaparecem.

Se você continuar tomando isso, vai ficar viciada nessa merda. Sua mãe era contra o uso de fármacos. Ela dizia que as piores drogas eram vendidas na esquina, no boticário.

Caiu na desgraça de se apaixonar e ficou assim: burra e vulnerável. Não tinha ideias suicidas, mas permitia que fizessem qualquer coisa com ela.
Você pode terminar esse trabalho pra mim? Vamos no culto essa semana? Quer vir aqui em casa tomar um café?
Estava se matando aos poucos sem que percebesse.

Queria dar fim ao sofrimento todo, mas ainda alimentava um pingo de esperanças que dali um tempo a vida ficasse melhor.
Encheu o copo d'água e levou à boca outro comprimido.